segunda-feira, agosto 09, 2010

Processos disciplinares a alunos aumentaram 15%



Indisciplina

No ano lectivo 2009/2010 foram abertos 17 629 processos nas escolas. Maioria acabou em suspensão. Pais e professores estão preocupados.


João (nome fictício) deixou cair as calças ao entrar na sala e foi assim até ao lugar. O episódio valeu-lhe quatro dias de suspensão. Tal como ele, houve mais 16 932 estudantes suspensos neste ano lectivo. Esta é a sanção mais aplicada aos alunos e tem vindo a aumentar nos últimos três anos, em que dispararam também os processos disciplinares.
Ao todo, no ano lectivo 2009/2010 foram abertos 17 629 processos disciplinares, representando um aumento de 15,4% em relação ao ano anterior. Um crescimento que preocupa as associações de pais e os sindicatos dos professores. Mas que o Ministério da Educação (ME) garante ser o resultado de "uma maior atenção e rigor nas escolas relativamente a estes fenómenos".
Os dados foram divulgados pelo ME ao grupo parlamentar do CDS-PP, que questionou a tutela em relação aos casos de violência e indisciplina registados nos últimos três anos nas escolas. Os números enviados confirmam, segundo o deputado José Manuel Rodrigues, que "a violência e a indisciplina aumentaram nas escolas".
Para as associações de pais, a subida do número de alunos na escola faz crescer os conflitos. "Há cada vez mais alunos, cada vez até mais tarde e com várias origens culturais. Estudos indicam que estes factores aumentam a conflitualidade", adianta Albino Almeida, presidente da Confap (Confederação Nacional das Associações de Pais). O dirigente acrescenta que, num universo de cerca de 1,6 milhões de alunos, o número de processos é o "esperado".
O tempo que os alunos passam na escola é considerado pela Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE), um factor que influencia o comportamento desviante dos jovens. "A escola não tem condições para disponibilizar actividades lúdicas, e os alunos passam cada vez mais horas fechados na salas de aula", diz Maria José Viseu.
Os sindicatos de professores entendem que os casos de indisciplina e violência estão ligados à perda de autoridade dos docentes. Até porque "cada vez mais as situações de indisciplina fazem parte do dia-a-dia das escolas e quase todas roçam a violência", sublinha o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira. Faltam medidas de prevenção. "Além das medidas de punição para as situações de indisciplina, tem de haver um esforço para a criação de equipas de apoio", defende o líder da Federação Nacional da Educação (FNE), João Dias da Silva.
Tanto pais como professores esperam que o novo Estatuto do Aluno, aprovado recentemente no Parlamento, venha contribuir para a diminuição destes números. Mas não deixam de defender a introdução urgente das equipas de apoio ao aluno e à família, cuja implementação ficou de fora no novo Estatuto do Aluno.
João Sebastião, coordenador do Observatório da Segurança Escolar, explica que os processos disciplinares só aumentaram porque as escolas estão mais atentas. E exemplifica: "Antes, um pó branco na mala de um aluno implicava chamar a polícia para ver se era droga. A escola não abria processo disciplinar. Hoje isto dá direito a processo disciplinar."
Por isso, Manuel (nome fictício) não escapou a repreensão registada depois de ter rebentado uma bomba de mau cheiro na sala de aula. Os pais tiveram conhecimento do caso e o incumprimento ficou registado no currículo do estudante.

domingo, agosto 08, 2010

Pão: indústria pede fim de restrições às importações para suportar preços



Mais aumentos em cima da mesa

A Associação do Comércio e da Indústria de Panificação e Pastelaria (ACIP) apelou hoje ao Governo para que as restrições às importações sejam abertas, avisando que as empresas não conseguirão suportar novos aumentos da farinha.


Em declarações à agência Lusa, o presidente da ACIP, Carlos Santos, explicou que, à semelhança do que aconteceu em 2008, o Governo deveria "permitir que as importações de países como os EUA ou o Canadá" sejam permitidas, para se corrigir o mercado.
"Já se falam em novos aumentos e estes, a concretizarem-se, em mês e meio a farinha aumentará 50 por cento", avisou o responsável, referindo que as empresas "não estão em condições de suportar novos aumentos".
A associação já avisou que esta semana algumas empresas deverão aumentar o preço do pão, resultado da subida acumulada de 30 por cento no preço da farinha, depois de uma actualização feita no mês passado e de uma outra agendada para a próxima semana.
De acordo com Carlos Santos, alguns industriais já adiantaram que nos próximos dias irão actualizar as tabelas para os preços de 2008, altura em que o preço médio do pão chegou a sofrer um aumento entre os 25 e os 30 por cento, reagindo a uma duplicação do preço da farinha.
"Os últimos aumentos da principal matéria-prima justificam aumentos e que as empresas analisem as contas e verifiquem o que precisam de fazer", sublinhou o responsável, lembrando que Portugal importa 90 por cento de trigo, a principal matéria-prima usada na confecção do pão.
De acordo com a ACIP, o valor médio do pão ronda atualmente os 12 e os 17 cêntimos (40 a 45 gramas), sendo habituais no sector aumentos em unidades de 1 cêntimo, dependendo de cada empresa.
"Ninguém está preparado para os aumentos no pão. Além disso, os aumentos nos cereais não provocam apenas aumento no pão, mas também na carne [enquanto ração] e em outros alimentos", disse.
Na semana passada, o trigo atingiu o valor mais alto em 23 meses, no mesmo dia em que a Rússia, o terceiro maior produtor do mundo, decretou a proibição das exportações depois da pior seca do país nos últimos 50 anos.
Segundo o presidente da ACIP, "os empresários vão ter de ir analisando dia a dia, semana a semana, e ir actualizando as tabelas se for necessário".

Uma espécie de "Big Brother" da vida de José Saramago



Apresentação mundial de "José e Pilar" na Festa Literária Internacional de Paraty

"Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro, as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim", ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde o escritor foi ontem à noite homenageado. "Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar." José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio" e apaga uma luz.


Os 40 minutos exibidos na Flip, com cenas que estão incluídas no documentário "José & Pilar" e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer "um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias", como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa que se seguiu com o realizador que durante três anos filmou a vida do Prémio Nobel.
A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da Flip, estava cheia. "Pilar, vou para casa", diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: "Este para aqui e este para ali". De repente, o público que assiste ao desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador. "Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança" e são boas para que afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.
Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega a Pilar das páginas que José Saramago vai escrevendo, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).
Ao contrário de escritores que viveram a boémia, "a minha vida não tem qualquer espécie de interesse. Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros", afirma Saramago, lembrando que "o tempo aperta" e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência. Nos excertos de "José & Pilar", que ontem no Brasil foram apresentados mundialmente pela primeira vez (a estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa), assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: "Tive uma ideia sobre Caim". Pilar, chama a hospedeira e pede: "Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico." Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

O documentário possível

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário “Autografia" sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. "O que acabámos de ver", explica Miguel Gonçalves Mendes, "não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu." Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a "vontade de viver e de amar", sem “rodriguinhos”.
"Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar” nele, afirmou Miguel Mendes. "José & Pilar" é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. "Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo."O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: "Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny."
O documentário "José & Pilar" termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava "morrer lúcido e de olhos abertos". Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

Fisco: Pilar del Río acusa entidades espanholas de perseguição política a Saramago



Nobel português pensou em pedir nacionalidade espanhola

A viúva de José Saramago, Pilar del Río, considera que a alegada dívida do Prémio Nobel da Literatura português ao Estado espanhol é "uma perseguição claramente política" por parte de entidades espanholas, fruto das posições públicas de José Saramago contra a guerra no Iraque. Em entrevista ao "Diário de Notícias" publicada hoje, Pilar del Río diz ainda que recusou várias vezes que o escritor pedisse a nacionalidade espanhola e anuncia que vai publicar o último texto em que Saramago trabalhava, o princípio de um livro.


"Pensámos em vários momentos conjuntamente. Ele, pedir a espanhola, e eu, a portuguesa. (...) Mas eu recusei sempre que ele pedisse a espanhola", diz a jornalista e presidenta da Fundação José Saramago. O motivo: "Porque ele é um símbolo de Portugal". Sobre o pedido de nacionalidade portuguesa, revelado pela primeira vez ao diário brasileiro "Globo" e confirmada ao PÚBLICO a 26 de Julho, a viúva do escritor reitera ao DN que a sua motivação foi "emocional. Sem razão. Creio que lhe devo [a José Saramago] isso, ponto."
Quanto à polémica com o fisco espanhol, Pilar del Río queixa-se de "insensibilidade dos meios de comunicação social" pelo timing e explica que José Saramago tentará já resolver o problema. "Saramago cumpriu civicamente com os seus deveres e, quando isto começou há dez anos, pediu auxílio ao Governo de Portugal, o primeiro-ministro de Portugal e o primeiro-ministro de Espanha disseram-lhe que estava resolvido". "Por outro lado, houve alguém dentro do fisco espanhol que teve muito empenho em que isto não estivesse resolvido", acusa.
Trata-de se um caso que remonta ao final dos anos 1990. Em Abril, um tribunal condenou o escritor a pagar os seus impostos em Espanha e não em Portugal, por entender que a sua residência fiscal se encontrava naquele país. Em causa está o pagamento de 717.651 euros ao fisco espanhol, referentes aos anos de 1997, 1998, 1999 e 2000, em que o escritor pagou os seus impostos em Portugal. Em 2008, o Tribunal Económico Administrativo Central espanhol entendeu que o escritor vivia permanentemente em Espanha (em Tías, Lanzarote) e que aí devia responder perante o fisco. É desde então que se arrasta este processo.
Pilar del Río considera que o facto de o caso não estar resolvido "foi uma perseguição claramente política", apontando o dedo a "alguém muito concreto de Espanha". "Todo este problema surgiu quando Saramago pegou na bandeira da guerra contra o Iraque; quando Saramago enfrentou o Governo dos Estados Unidos e também o de Espanha por causa dessa guerra".
Sobre a obra póstuma, a viúva do único Nobel da Literatura em língua portuguesa indica que o início de um livro (50 páginas) que Saramago tinha por terminar será publicado enquanto tal: "Não é um livro porque ainda não estava acabado. Não vamos enganar ninguém". O inédito "Clarabóia", cuja publicação foi vedada a um jovem Saramago, será também um dia editado, mas Pilar del Río não avança datas. "Não há pressa".
Pilar del Río estima ainda que a Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em cujo jardim fronteiro repousarão as cinzas do escritor, esteja pronta em Junho de 2011, salvaguardando a data perante a complexidade das obras em curso.

Líderes políticos concentram "rentreés" no final de Agosto



O PSD dá o pontapé de saída no Pontal, embora o local seja Quarteira. O PS escolhe Matosinhos de triste memória. E o BE profere palestras em Braga. Os restantes partidos mantêm a tradição: o PCP abre a temporada no Seixal e o CDS-PP na Praça do Peixe, em Aveiro.
É já no próximo sábado que o PSD realiza a habitual Festa do Pontal que, nas palavras do seu organizador de sempre, Mendes Bota "volta a ser a festa da rentreé social-democrata". "Este líder apostou de novo na festa e vai abrir as hostilidades" no palco do calçadão de Quarteira, assinalou ao JN o líder da distrital do PSD/Algarve, que espera "muitas caras conhecidas", mas não adianta nomes, para não criar "casos", como em anos anteriores.
Com três mil lugares reservados para o jantar, Bota afirma que "já vai longe o tempo dos piqueniques cheios de pó, do chichi atrás dos pinheiros e do cheiro a sardinha assada", quando a festa se realizava na mata do Pontal, hoje urbanizada. E vão também longe os apertos financeiros de 1996, quando "o partido estava falido e foi o Marcelo que me deu do bolso dele cinco mil contos para a festa", recorda.
O dirigente disse ainda ao JN que é "na aliança entre as massas e a 'inteligentzia' que reside o sucesso, pois um partido só com cabeças pensantes, mas incapaz de sair à rua, também não vai longe, com se viu nas últimas eleições".
Algumas dessas "cabeças" do PSD estarão na Universidade de Verão, em Castelo de Vide, de 30 de Agosto a 4 de Setembro, que inclui cinco jantares-conferência protagonizados por portugueses com êxito no estrangeiro, Leonor Beleza, Alexandre Relvas e três independentes.
Os dois partidos mais à Esquerda do espectro político também não vão esperar por Setembro. O BE renovou a iniciativa dos comícios nocturnos no Algarve e realiza de 27 a 29 de Agosto, em Braga, o fórum de discussão "Socialismo 2010", com a presença de Francisco Louçã e do líder parlamentar, José Manuel Pureza. Na mesma linha, o PCP criou a caravana de Verão, que precede a Festa do "Avante!", de 3 a 5 de Setembro, no Seixal, onde se espera que Jerónimo de Sousa apresente, no comício de encerramento, o candidato do partido às presidenciais de Janeiro de 2011.
Tal como os comunistas, o CDS não abdica de fazer o comício de fim da tarde, dia 28, na Praça do Peixe, em Aveiro, depois dos workshops de formação em política para militantes.
Quanto ao PS, o Secretariado Nacional ainda não discutiu em pormenor a "rentreé". Porém, deverá ocorrer a 4 de Setembro, num comício com José Sócrates, em Matosinhos, cidade onde faleceu em Março de 2004, o então cabeça de lista às eleições europeias, Sousa Franco.

Livro inacabado "não é para fazer negócio"

Entrevista com Pilar del Río

Ainda há muito espólio literário para revelar?

Não.

Só o último livro que estava a escrever?

Sim. Mas não é um livro.

Não será publicado?

Sim, será publicado. Creio que é um texto maravilhoso, cheio de humor, com uma profundidade e uma carga que merece que seja publicado. Mas não é um livro porque não ainda estava acabado. Não vamos enganar ninguém.

É o princípio de um livro?

Claro, e ao qual os leitores têm direito. Como? Quando? De que maneira? Isso, logo veremos como acontecerá. E não é para fazer negócio.

Não há mais nada desconhecido na arca de Saramago?

O que havia não publicado viu-se na exposição A Consistência dos Sonhos. Não há mais, lamento. Saramago não era um autor que escrevesse e fosse metendo em gavetas para o futuro. Foi um autor tardio, e aquilo que escrevia ia publicando. Existe, sim, uma obra da juventude, de que já falámos mil vezes - Clarabóia - e da qual disse "não a quero ver publicada em vida". Mas como não proibiu que o fosse depois, assim irá acontecer um dia. Evidentemente, será como apresentado como uma obra de juventude, como o foi Terra do Pecado.

Quando se prevê essa publicação?

Ainda não houve tempo para se pensar no assunto.

Para este último "romance" já existe uma data de publicação?

Ainda não falámos com os editores nem com a agente literária. Não há pressa.

Quantas páginas tem?

Teria de as ter contado mas nem sequer as tenho numeradas no meu computador. Mas não serão muitas, cerca de 50.

Qual é o título?

...

José Saramago dizia sempre que a obra de um escritor nunca estava completa sem publicar as cartas dos leitores. Pensa editá-las?

Isso poderia ser um trabalho para cinco teses de doutoramento, pois a quantidade de cartas que lhe foram enviadas é impressionante. O que vai publicar-se imediatamente será uma recolha de alguns artigos que se escreveram em torno da sua morte. Será intitulado Palavras para Saramago e é uma selecção de artigos de colegas do meu marido, escritores de todo o mundo. Seria uma pena que por terem sido publicados em Espanha não os conheçam em Portugal e vice--versa. Ou porque foram publicados no México ou nos EUA não se conheçam aqui.

E ainda foram bastantes!

É que não eram textos de circunstância. Tomei essa decisão esta semana porque, pela primeira vez, fui capaz de começar a ler jornais e fiquei perplexa com algumas coisas que encontrei. Textos impressionantes, dos quais disse logo: "É preciso dar a conhecer isto."

Haverá alguma reunião de textos avulsos em livro?

Muitos desses textos - prólogos ou prefácios, por exemplo - estão publicados nos Cadernos de Lanzarote ou no Caderno de Saramago. Não tenho conhecimento de que haja uma grande quantidade de coisas por publicar.

Aumentou o interesse dos investigadores na consulta do espólio?

O material mais importante já estava na exposição, mas temos tido algumas solicitações.

A leitura da obra irá mudar agora?

Não…

Saramago era bem conhecido...

Há uma quantidade de livros sobre a obra de José, em muitos idiomas, e não creio que algum autor altere a sua percepção da obra por ele ter morrido. Também duvido muito que se inventem muitos mais temas desde o momento em que até se estudou o gerúndio na obra de Saramago. Há, no entanto, muitos trabalhos que desconhecemos porque não estão traduzidos - é o caso do Irão, onde existem vários - mas esse é o problema do trabalho universitário, porque é pouco divulgado fora da própria universidade.

Para onde irá a exposição A Consistência dos Sonhos?

Em princípio irá para Madrid e vai contar com novos elementos. Há muitos livros traduzidos no entretanto - e outros sobre Saramago que não estão em exposição - como é o caso de A Viagem do Elefante e de O Caderno, que teve uma crítica impressionante nos Estados Unidos e na Alemanha.

"A biblioteca de Lanzarote é a jangada de pedra para os EUA e África"

Entrevista com Pilar del Río

Falou-se em fazer os roteiros de Saramago na terra onde nasceu. Sempre avançam?

A mim parece-me muito bem a proposta, e gostava muito que tal acontecesse. Há um grupo que estava a fazer um levantamento e até já se tinha decidido onde colocar fragmentos das Pequenas Memórias em vários sítios da Azinhaga. E ao José essa proposta emocionou-o muito, mas ainda não avançou. Outro roteiro que acho muito interessante é o Caminho do Elefante, baseado no livro A Viagem do Elefante. Seria uma rota turística de primeira porque toda essa zona de Portugal tem um fio condutor magnífico e poderia servir como um veículo de desenvolvimento cultural.

Como seria o roteiro?

Começaria no Mosteiro dos Jerónimos, seguiria pela terra de Camões, Constância, e acabaria em Castelo Rodrigo. Podia estabelecer-se com este roteiro um veículo cultural muito importante entre as pessoas e as terras. Se eu fosse ministra do Turismo ou da Cultura, desde logo que o assumiria como um projecto misto de desenvolvimento cultural e turístico. A maior parte das pessoas não conhece a riqueza do interior de Portugal.

A biblioteca de Saramago em Lanzarote tem tido visitantes?

Ainda há dias estávamos a limpar os tapetes e chegaram uns portugueses a perguntar se podiam visitar. "Por Deus, estamos nas limpezas, é domingo à tarde", mas entraram! Há visitas de turistas marcadas e, diariamente, vêm bastantes visitantes.

O que significa esta biblioteca?

É a jangada de pedra que foi lançada da Península Ibérica até à América e à África. Há também um projecto do Estado para que não se perca o vínculo de Saramago com Espanha, que passa por Lanzarote. De momento, é apenas um projecto, mas pressuponho que esteja muito consistente.

Os pólos da Azinhaga e de Castril também vão manter actividades?

O da Azinhaga é lógico, mas o de Castril é mais pessoal, porque não há tanto o vínculo de Saramago mas sim da minha família. Têm o festival Sete Sóis e Sete Luas e no próximo dia 18 vão fazer uma homenagem com a inauguração do Centro Saramago, como estava planificado e sonhado há anos. Essa é outra das iniciativas onde eu deveria ir e estar porque estarão presentes todas as autoridades.

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